quinta-feira, 19 de abril de 2018

O caderno do avô Heinrich

Título: O caderno do avô Heinrich
Autor: Conceição Dinis Tomé
Edição: 1ª
Páginas: ...
Editor: Editorial Presença
ISBN: 978-972-235130-0
CDU: 82-93

(...) há homens que são loucos  e que,  quando têm o poder nas mãos, aproveitam para concretizar todos os seus delírios e dar voz a todos os fantasmas e ódios que têm dentro de si.  

(...) uma neblina  espessa pairava sobre o parque, ocultando a capa das árvores. A chuva continuava a cair, uma carícia sobre as flores. Nas árvores despontavam as primeiras folhas, tenras e de um verde frágil, e, nos canteiros, as tulipas irrompiam coloridas e alegres, indiferentes à guerra".

" É possível acordar todas as manhãs e começar de novo. Como se a vida nos desse a possibilidade, em cada aurora, de a reinventar e de a transformar. Acho que foi sempre isso que eu tentei fazer. Houve muitos dias em que o consegui e outros em que me deixei apenas arrastar ao longo das horas, à espera de um novo amanhecer. Nesses dias, sempre soube que um livro é o melhor refúgio, como um colo quente ou um chocolate acabado de fazer. Ou um aroma  do pão a sair do forno. E que, dentro de um livro, encontraremos sempre liberdade. 


Conceição Dinis Tomé, O caderno do avô Heinrich, págs. 76, 36 e 53.

domingo, 15 de abril de 2018

Pequenas pessoas na cidade


Slinkachu trabalha em miniaturas desde 2006. A sua intervenção baseia-se em remodelar e pintar miniaturas que depois são deixadas na rua. Trabalha pois num conjunto de suportes e materiais que passam pela arquitectura, fotografia e arte de rua. Procura estimular a curiosidade e a surpresa dos habitantes da cidade e das pessoas que visitam as suas exposições. 

Slinkachu é um artista londrino que se dedica a promover intervenções urbanas distribuindo pela cidade miniaturas de um conjunto de objectos, tais como, pessoas, animais e objectos, insectos mortos e lixo urbano. Esta sua intervenção cria cenários liliputianos que depois são integrados na cidade de Londres. Trata-se pois de uma intervenção na cidade muito interessante, onde pequenas figuras surgem indefesas no caótico cenário urbano e na sua dimensão XL. 

De algum modo este autor procura mostrar pela intervenção que faz a solidão e melancolia das grandes cidades e, como cada um se pode sentir perdido a esta escala de representação. Por outro lado a sua mensagem também passa pela necessidade que a cidade seja um espaço acessível a todos e, a necessidade que todos têm de empatia para ter sucesso nesse ambiente.
Do resultado do seu trabalho foi construído um livro de nome, “Little People of the City.”
O seu trabalho pode ser visto aqui.

domingo, 1 de abril de 2018

abril


Celebra-se o vinte e cinco
de Abril de setenta e quatro,
pois Abril é revolução
no ar, sim, como no chão,
onde alguém desenha a giz
a silhueta futura
de Portugal, um país
que, tantos fogos passados,
certa manhã renasceu
das cinzas da ditadura.

Abril é também promessa
de tesouros no Estio,
que está longe  (ainda é frio).
águas mil por certo vêm,
mas outros dias já trazem
uma luz azul também.

E este Abril é ainda

o mês em que os livros voam
da mil da mão para a rua,
da tua p'rá minha mão,
e das mãos voam p'ròs olhos
e dos olhos para a mente
e daí p'ró coração.

João Pedro Mésseder, "Abril", in O Livro dos Meses 
Imagem - Copyright - Jettie Rosenboon

sexta-feira, 30 de março de 2018

Começa numa semente


"Como pode algo tão pequeno
transformar-se numa árvore,
e que é uma incrível
grande forma para se ser"

Jennie Webber assina um livro de grande valor pedagógico e educativo na ilustração sobre como uma semente se pode transformar numa grande árvore. Num texto acessível, de Laura Knowles destinado a um público infantil, Começa numa semente é um livro / álbum sobre o crescimento de um semente que sonha crescer, entrar no solo profundo e chegar ao céu. 

A semente vai-se transformando numa árvore de grande imponência, à volta da qual vivem animais de diferentes espécies. A semente sente esse orgulho de ter uma acção protectora, "crescem fortes os seus ramos, que dão sombra e abrigo: uma casa onde os animais se sentem fora de perigo."

A árvore aqui usada para contar esta história é uma Acer pseudoplatanus, de nome comum "bordo". Os leitores deste interessante livro ficam a saber que esta árvore "pode produzir até dez mil sementes por ano", a que se dá o nome de "helicópteros", visto que as sementes em queda esboçam um percurso em forma de rodopio no ar. 

Livro com uma ideia de generosidade pela continuidade da vida e a sua renovação, que podemos testemunhar num dos excertos, "mal as sementes estão prontas, partem no sopro da brisa... e talvez algumas delas venham a ser um dia... árvores cheias de vida." Começa numa semente é um livro interessante para a difusão da ideia do valor do natural e da floresta.

Começa numa semente / Texto de Laura Knowles e Ilustração de Jennie Webber. Tradução de Susana Cardoso Ferreira. Lisboa: Editora 2020 / Fábula, 2018

quinta-feira, 29 de março de 2018

Namora uma rapariga que lê


Rosemarie Urquico, escritora filipina escreveu este texto, "Namora uma rapariga que lê". Autora quase desconhecida escreveu este texto que deu aso a réplicas interessantes como a escrita por Charles Warnke, sob o inverso título, You Should data an Illiterate girl. Carla Maia Almeida traduziu o que se pensa ser o original e deu-nos este texto maravilhoso.

«Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro em livros em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.
Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler na mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que procurava. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas e usadas.
Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares para a chávena, verás a espuma a pairar à superfície, porque também ela está enlevada. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.

Oferece-lhe outra chávena de café.

Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade do Anel. Entende que, se ela disser ter percebido o Ulisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.
É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal, em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.
Ela tem de arriscar, de alguma maneira.
Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, subtileza, diálogo. Nunca será o fim do mundo.
Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.

Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na saga Crepúsculo.
Se encontrares uma rapariga que lê, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.

Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.
Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.
Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.
Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve.»

(via)

sábado, 24 de março de 2018

À volta das estrelas


Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas

 Quem quer casar com a poetisa? / Adília Lopes; posf. Valter Hugo Mãe. – 1ª ed. – Vila Nova de Famalicão: Quasi. – 192, [7] p. ; 23 cm. – (Finita melancolia ; 2). – ISBN 972-8632-30-4


sexta-feira, 23 de março de 2018

Herberto Helder


Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.
Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

- a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressureição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

 - como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
Que fixam estas coisa puras.
Renascia.

       Herberto Helder, Poesia toda. Lisboa: Assírio & Alvim.