sábado, 10 de fevereiro de 2018

Entre as folhas

As árvores como os livros
têm folhas e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».


É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.

Jorge Sousa Braga, “As Árvores e os Livros”, in Herbário. Lisboa: Assírio & Alvim, 1999

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

As terras Imaginadas


Em tantas humanidades que formalizam tantas individualidades que formas são imaginadas para a representação da Terra? 

Guillaume Duprat escreveu um livro na área da literatura infanto - juvenil sobre esta questão dando-nos um álbum curioso que foi premiado na conhecida Feira de Literatura Infantil de Bolonha de 20o9. 

Nas suas próprias palavras, a descrição da sua ideia: "Um livro imaginado e sonhado, como um caderno de uma viagem, onde o fio condutor fosse a classificação pelas formas que a Terra poderia assumir em diferentes culturas. Terras planas e circulares, terras como formas de polígonos ou esféricas." 

No seu livro encontramos a terra que os gregos imaginaram, ou dos xamãs das culturas aborígenas de diferentes continentes. 

Quando verificamos as ideias dessa projecção pelos índios, como é o caso do Perú, dos Huni Kuin compreendemos como eram ingénuos nas suas apreciações e como a perfeição da sua cosmogonia teria sérias dificuldades de cumprimento perante os civilizados europeus. Não deixa de ser gratificante reconhecer a projecção das ideias mentais numa representação iconográfica das formas da Terra. Mais informações, aqui.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O meu primeiro Torga




Um livro escrito por João Pedro Mésseder e que Inês Oliveira ilustrou dando-nos o universo de Torga e a introdução para os mais pequenos desse nome essencial das letras do século XX.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Jorge Amado - O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá

Este é um capítulo curto porque o Verão passou muito depressa com o seu sol ardente e suas noites plenas de estrelas. É sempre rápido o tempo da felicidade. O Tempo é um ser difícil. Quando queremos que ele se prolongue, seja demorado e lento, ele foge às pressas, nem se sente o correr das horas. Quando queremos que ele voe mais depressa que o pensamento, porque sofremos, porque vivemos um tempo mau, ele escoa moroso, longo é o desfilar das horas.
Curto foi o tempo do Verão para  Gato e a Andorinha. Encheram-no com passeios vagabundos, com longas conversas à sombra das árvores, com sorrisos, com palavras murmuradas, com olhares tímidos porém expressivos, com alguns arrufos também...
Não sei se arrufos será a palavra precisa. Explicarei: por vezes a Andorinha encontrava o Gato abatido, de bigodes murchos e olhos ainda mais pardos. A causa não variava: a Andorinha saíra com o Rouxinol, com ele conversara ou tivera aula de canto - o Rouxinol era o professor. A Andorinha não compreendia a atitude do Gato Malhado, aquelas súbitas tristezas que se prolongavam em silêncios difíceis. Entre ela e o Gato jamais havia sido trocada qualquer palavra de amor, e, por outro lado, a Andorinha, segundo disse, considerava o Rouxinol um irmão.
Um dia - um dia em que a aula de canto se prolongara além do tempo costumeiro - quando os bigodes do Gato Malhado estavam tão murchos que tocavam o solo, ela lhe pediu explicação daquela tristeza. O Gato Malhado respondeu:
- Se eu não fosse um gato, te pediria para casares comigo...
A Andorinha Sinhá ficou calada, num silêncio de noite profunda. Surpresa? - não creio, ela já adivinhara o que se passava no coração do Gato Malhado. Zanga? - não creio tampouco, aquelas palavras foram gratas ao seu coração. Mas tinha medo. Ele era um gato e os gatos são inimigos irreconciliáveis das andorinhas.
Voou rente sobre o Gato Malhado, tocou-o de leve com a asa esquerda, ele podia ouvir os latidos do pequeno coração da Andorinha Sinhá. Ela ganhou altura, de longe ainda o olhou, era o último dia de Verão. (págs. 67-68).
  

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Leitores



As palavras como uma sementeira, uma descoberta de ternura em gestos de espanto.
Ilustrações de André Neves