segunda-feira, 29 de junho de 2015

O Principezinho

«Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.»

É um livro imortal pelo que nos dá de ler o essencial do que podemos ser. A história de um principezinho que de um asteróide visita a Terra e encontra um amigo, as suas experiências, os objectos, os quotidianos na descoberta do que mais importante podemos ousar construir. Com ilustrações de Antoine de Saint-Exupéry é uma descoberta que desde a sua publicação inicial em 1943, nos transmite valores tão essenciais para dias onde o coração e o que é justo está ausente do essencial dos dias. Iremos deixar por aqui, em posts sucessivos, alguns dos seus fragmentos com as ilustrações desenhadas pelo seu autor.

domingo, 21 de junho de 2015

Finalmente o Verão

Saído no Planeta Tangerina, Finalmente o Verão, é um livro de grande valor educativo para os mais novos e para os gostam de ler literatura juvenil. Histórias de amizade e cumplicidade entre jovens, no Verão em Awago Beach. É um livro sobre o fim da infância, a entrada na adolescência e as dificuldades, os sentidos e as dores que a acompanham. O livro é referenciado como um grande livro e assim nos parece. Este livro obteve um conjunto de prémios de grande significado como:
- Caldecott Honour, atribuído pela American Library Association, 2015
- Printz Honor, atribuído pela YALSA, 2015
- Governor General’s Literary Award for Children’s Illustration, Canadá, 2014
- Notable Children’s Books of 2014 pelo The New York Times Book Review
- Best Books of the Year 2014 pelo School Library Journal
- Horn Book “Best Book of 2014” (Categoria Ficção)
- Ignatz Award, atribuído pela Small Press Expo, 2014
Os desenhos são também um dos pontos mais envolventes do livro, de grande envolvência com a história. O livro junta um desenho gráfico em que alia técnicas de manga e prosa literária moderna. Sugerido como livro para leitores a partir dos 13 anos, ele pode ser lido por leitores bem mais velhos, pois as suas páginas retratam as aventuras que todos gostamos de experimentar. Um livro a descobrir pelo Verão e neste Verão. 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

A maior flor do mundo

As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples… Quem me dera saber escrever essas histórias…
Se eu tivesse aquelas qualidades, poderia contar, com pormenores, uma linda história que um dia inventei… …seria a mais linda de todas as que se escreveram desde o tempo dos contos de fadas e princesas encantadas…

… havia uma aldeia. …e um menino.

… sai o menino pelos fundos do quintal, e, de árvore em árvore, como um pintassilgo, desce o rio e depois por ele abaixo…
Em certa altura, chegou ao limite das terras até onde se aventurara sozinho. Dali para diante começava o “planeta Marte”. Dali para diante, para o nosso menino, será só uma pergunta: «Vou ou não vou?» E foi. O rio fazia um O rio fazia um desvio grande, afastava-se, e de rio ele estava já um pouco farto, tanto que o via desde que nascera. Resolveu cortar a direito pelos campos, entre extensos olivais, ladeando misteriosas sebes cobertas de campainhas brancas, e outras vezes metendo pelos bosques de altas árvores onde havia clareiras macias sem rasto de gente ou bicho, e ao redor um silêncio que zumbia, e também um calor vegetal, um cheiro de caule fresco.

Ó que feliz ia o menino! Andou, andou, foram rareando as árvores, e agora havia uma charneca rasa, de mato ralo e seco, e no meio dela uma inclinada colina redonda como uma tigela voltada. Deu-se o menino ao trabalho de subir a encosta, e quando chegou lá acima, que viu ele? Nem a sorte nem a morte, nem as tábuas do destino… Era só uma flor. Mas tão caída, tão murcha, que o menino se achegou, de cansado. E como este menino era especial de história, achou que tinha de salvar a flor. Mas que é da água? Ali, no alto, nem pinga. Cá por baixo, só no rio, e esse que longe estava!... Não importa. 

Desce o menino a montanha, atravessa o mundo todo, chega ao grande rio, com as mãos recolhe quanta de água lá cabia, volta o mundo atravessar, pelo monte se arrasta, três gotas que lá chegaram, bebeu-as a flor com sede. Vinte vezes cá e lá… Mas a flor aprumada já dava cheiro no ar, e como se fosse uma grande árvore deitava sombra no chão. O menino adormeceu debaixo da flor. Passaram as horas, e os pais, como é costume nestes casos, começaram a afligir-se muito. Saiu toda a família e mais vizinhos à busca do menino perdido. E não o acharam. Correram tudo, já em lágrimas tantas, e era quase sol-pôr quando levantaram os olhos e viram ao longe uma flor enorme que ninguém se lembrava que estivesse ali. Foram todos de carreira, subiram a colina e deram com o menino adormecido. Sobre ele, resguardando-o do fresco da tarde, estava uma grande pétala perfumada…

Este menino foi levado para casa, rodeado de todo o respeito, como obra de milagre. Quando depois passava pelas ruas, as pessoas diziam que ele saíra da aldeia para ir fazer uma coisa que era muito maior do que o seu tamanho e do que todos os tamanhos. Este era o conto que eu queria contar. Tenho muita pena de não saber escrever histórias para crianças. Mas ao menos ficaram sabendo como a história seria, e poderão contá-la doutra maneira, com palavras mais simples do que as minhas, e talvez mais tarde venham a saber escrever histórias para crianças… 

Quem sabe se um dia virei a ler outra vez esta história, escrita por ti que me lês, mas muito mais bonita?...

José Saramago. A maior flor do mundo. Ilustrações de André Letria.
Fundação José Saramago. 2013

Saramago - histórias para crianças

"E se as histórias para crianças passassem a ser obrigatórias para adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?"

A escrita em Saramago procura algo mais fundo, que é o que somos como humanidade, o que nos limita, que sonhos temos e que fundo nos modela. A maior flor do mundo, um dos seus "pequenos" livros, nessa ideia que ele tinha de que seria difícil escrever para leitores que utilizam poucas palavras. Mas A maior flor flor do mundo é um livro notável. Retrata-nos a destruição ambiental num mundo pouco preocupado com a respiração humana, com o valor dos indivíduos como pessoas. 

A flor de dimensões imensas aparece-nos como uma sátira a uma humanidade esquecida de si própria. A grande questão é de como tanto conhecimento se torna fútil e estéril, incapaz de conduzir os homens por caminhos de real sabedoria. Poderiam as histórias para crianças resgatar esse esquecimento? É uma ideia, no mínimo sedutora e de grande esperança. 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Amanhecer...

FLORES

Era preciso agradecer às flores
Terrem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
Duma manhã futura

SophiaNo Tempo Dividido
Imagem: A minha primeira Sophia, Ilustração de Fernanda Fragateiro

domingo, 14 de junho de 2015

Os livros...

A meio de outra manhã de outro dia qualquer, aí por volta das onze horas, o Puff apareceu sem ter entrado no escritório do senhor Pina.
«Viva! O que estás a fazer?»
«Estou a escrever um livro para a Sara e para a Ana. O Inventão.»
«Ah e é um livro para crianças, então?»
«Quando for lido por uma criança é um livro para crianças. Quando for lido por um adulto é um livro para adultos. Os livros não são “para”, os livros são.



(Álvaro Magalhães, O Senhor Pina, Assírio & Alvim)

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Na memória de Lewis Carroll

Sob luminoso céu, num sonho,
Desliza o barco, vagarosamente.
Era uma tarde de Julho...


Abraçadas, três crianças
De olhar brilhante, ouvido atento,
Felizes, escutam ingénua história.

Empalideceu já o luminoso céu,
Perderam-se as vozes e as lembranças,
Geadas outonais invadiram o calor do Verão.

Outras crianças escutarão ainda
Esta história, de olhar brilhante, ouvido atento,
Amorosamente abraçadas.

Viajando no Mundo das Maravilhas,
Esquecidas dos dias que passam,
Esquecidas dos Verões que morrem.

Deslizam na onda, sonham,
Demorando-se no brilho da Luz...
E a Vida, o que é, senão um sonho?

Lewis Carroll. (2010). Alice do outro lado do espelho. Publicações Europa-América.
(No aniversário dos cento e cinquenta anos da publicação da maior figura, como personagem da literatura juvenil, Alice no País das Maravilhas).


domingo, 7 de junho de 2015

Na memória de Astérix

A Banda Desenhada Astérix foi criada por René Goscinny e Uderzo há pouco mais de cinquenta anos, justamente a vinte e nove de Outubro de 1959. A primeira aparição foi apresentada na Revista Pilotee e o sucesso tem sido imenso ao longo de todos estes anos. Já foram publicados mais trinta álbuns, fizeram-se várias adaptações ao cinema assim como foram colocados à venda imensos produtos relacionados com os heróis da aldeia da Gália. Foi ainda criado um parque temático para ilustrar a magia de Astérix, Obélix e amigos.
O divertimento de Astérix passa pela forma criativa de uma aldeia a resistir ao domínio romano. Obélix, amigo de Astérix, com uso da sua força sobre-humana e Panoramix, o druida lutam magicamente contra os «loucos» romanos. Astérix usa uma linguagem que atraiu todos os seus leitores, assim como as referências feitas ao próprio século XX nas diferentes características dos povos que entram nos diferentes álbuns.

Astérix é no entanto muito mais que uma divertida história de quadradinhos. Astérix e a aldeia na Gália são a representação da França, do seu orgulho como País, da sua cultura a tentar resistir num mundo contemporâneo onde o império anglo-saxónico dominava já claramente.

Hoje, talvez não seja excessivo dizer que Astérix representa a humanidade no sentido da individualidade de comunidades que se apresentam diversas perante um mundo global. Falta-nos a poção de Panoramix e é por essa universalidade alcançada que Astérix é uma das grandes construções de ideias do século passado.

Imagem in, evaldolima.blogspot.com

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Dia mundial da criança - Pessoa e a infância

NOUTRO LUGAR
Criança, vamos partir,
Partir p’ra Outro Lugar.
Lá, os dias são suaves 
E os campos sempre a brilhar.
Lá, a lua brilha sobre
Quem vagueia em felicidade.
Fia sua luz e sombra
Teceu de imortalidade.
Lá, ver coisas é ser jovem,
Novos os contos contados,
Lá, sonhos reais se cantam
De lábios por nós olhados.
Lá o tempo é alegria,
Vida é sede saciada,
Amor é como o do beijo
Da boca primeiro beijada.
Nada de barcos, criança,
Só nossa esp’rança a remar,
Inda fresca a fantasia.
Busquemos Outro Lugar!
Fernando Pessoa " Rabequista Mágico" In Poesia Inglesa II , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luísa Freire, 2000.